Exposição ENTRE-LAÇADOS @acasamuseu

arte têxtil, arte da tecelagem, costura, bordado, objetos texteis e escultura

ENTRELAÇADOS
por Katia Canton
Os laços do título unem quatro criadores ao redor de uma prática milenar, que se renova e se revigora cada vez mais no contraponto de uma vida contemporânea, fugaz e virtualizada. Na verdade, por trás das potências de um discurso do manual, a arte têxtil se sofistica continuamente, abrindo-se para novos modos de existência e misturando-se a outras formas de arte.
Marta Meyer, Alexandre Heberte, Marina Godoy e Renato Dib criam aqui uma conversa onde os verbos bordar, tecer, cortar e costurar parecem brincar, trocar de lugar entre si, mil vezes, para finalmente voltar e tomar corpo na singularidade de cada experiência de vida e de arte.
Algumas décadas atrás, a chamada arte digital parecia fazer com que as formas manuais de arte se tornassem progressivamente anacrônicas. Falava-se numa desmaterialização da arte, apostando-se num processo de virtualização da produção artística. Ao contrário, a pintura, o desenho, a cerâmica, o bordado, isto é, o processo de criação manual vem sendo cada vez mais valorizado, como narrativas de uma afirmação de nossa própria condição de humanidade.
Nos entrelaçamentos aqui expostos, cada qual dos artistas se mistura e, ao mesmo tempo, se destaca do outro, como na relação frente e verso de um mesmo tecido bordado.

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Marta Meyer, que estudou tear manual na França, entre final do ano 70 e início dos 80, possui uma obra de leveza ímpar. Sua trajetória inclui uma incursão pelo mundo da moda e pelas peças de acessório e design. Além de seu apartamento-ateliê em São Paulo, ela também trabalha em Trancoso (BA) e em Santo Antonio do Pinhal, onde pesquisa tingimentos artesanais para seus tecidos. Marta apresenta painéis têxteis repletos de transparências e sutilezas, com predominância de brancos e translúcidos e algumas peças carregadas de um vermelho, de inspiração feminina.
Alexandre Heberte é cearense, de Juazeiro. Quando chegou a São Paulo, anos atrás, teve contato com o tear meio ao acaso, no apartamento de um amigo onde estava hospedado¸ enquanto procurava trabalho. Nesse momento, as redes de pescador de sua terra, as máquinas de costura da mãe, que por um bom tempo foi costureira, se juntaram à experiência estranha e encantadora da metrópole. Como resultado dessa mistura, surgem projetos onde o ato de tecer, utilizando formas simples de tear, provou-se performático e socialmente instigante. Alexandre já realizou performances, instalando seu tear no meio da rua, em bairros de São Paulo, no prédio da Bienal, por 48 ininterruptas horas, no MAC USP, dentro do projeto Rural Scapes. Aqui, ele mostra suas tecelagens originais, que muitas vezes utilizam materiais como fitas de antigos VHS, arames, lãs reaproveitadas, sinos do Cariri, molas, pequenas caixas de som.
Marina Godoy é artista com passagens pela pintura, instalação, criação de objetos e livros de artista. Há pouco mais de três anos, depois de cursar psicologia, apaixonou-se pelo trabalho de Bispo do Rosário e mergulhou em experiências próprias com a arte têxtil. No início, fez telas com frases bordadas e outros projetos bidimensionais. Foi a partir de suas pesquisas e visitas a brechós que Marina, apaixonada por tudo que tem uso prévio e memória, começou a adquirir bonecos e roupas antigas e transformar seu trabalho. Os bonecos passaram a ser recortados, mutilados e recheados novamente, ganhando novos contornos e detalhes de costuras e bordados. A tridimensionalidade, para ela hoje, é parte fundamental da obra, algo que lhe dá existência, vida. No resultado, os objetos viram criaturas estranhas, mutiladas mas pulsantes. Nelas podem faltar braços e sobrar cabeças ou pernas. As costuras viram cicatrizes e as cores vibrantes, energia de vida.
Renato Dib é um artista que se dedica à arte têxtil desde meados dos anos 90. Seus objetos moles são construídos a partir de estudos minuciosos sobre as texturas, cores, padronagens e transparências de determinados tecidos. Cada peça sua parece fazer alusão direta a partes do corpo e insinuar as diferenças nos tons da pele, nos poros, pelos, lábios, cabelos, nas diferenças entre os órgãos internos e externos, nos cheios e vazios que carregamos conosco. Ainda que consistentemente envolvido no reaproveitamento de materiais, foi a partir de uma residência no centro de São Paulo, que colocava em diálogo arte e moda, que Renato passou a assumir a assemblage com ainda mais vigor. Alguns de seus trabalhos mais instigantes são feitos a partir de coleções de gravatas rechegadas e justapostas ou de luvas, que são bordadas e pintadas. Na mostra, sua série, intitulada Air Embroidery, 28 objetos são dependurados em em ganchos de açougue, através de fios vermelhos e, vistos de perto, capturam o olhar num jogo sedutor de detalhes


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